Escrevo de coisas reais
Que de real no entanto nunca vi
Porque apenas seres reais
vem coisas concretas
E eu porventura não vi
Não tenho um problema existencial
Se de facto não existo
e que sou eu afinal
um aglomerado "dexistencial"
de átomos e partículas
E tendo contado por fim
cada dia da não-existência
a que eu firmemente tão agarrado
meto as mãos na consciência
e com um ego mirrado
ponho um olhar, um olhar apagado
Dum fantasma que alego ser
porque dos outros nada sei
nem sei se quer se me vêem
falam e quando falam
me chateiam
Sempre nas suas teimosias
dotadas de origens ancestrais
e eu que sou diferente
e tão feito de nada
cruzo o presente com o passado
e faço a minha própria salada
e quando falo, falo de forma tão calada
que duvido sequer se que alguém ouviu
e dou as graças
porque mesmo se ouvissem
não intenderiam nada
seria como um vento que arrepia
e passa...
e quando passa, já passou
e o que ficou mesmo já la foi
mas eu teimo em ficar
Porque se vou e igual
e ao menos dou um ar emocional
a minha existência ficcional
Escrevo, por um amigo distante
amigo esse que nunca tive
afinal quantas pedras,
árvores ou a própria água
têm amigos
e passam tempos definidos
com essas presenças reais
Escrevo, se escrevo
também nunca sei
sei que fica e vejo,
se ficar nalguem
porventura duvido
fico inclusive estarrecido
e fico olhando o vazio
tão igual a mim mesmo
e do tempo que nunca passa
dou me conta duma conclusão
eu de facto não existo
mas quando escrevo
causo de facto impressão.
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